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# A Canção de Protesto: A Música Contra a Ditadura Militar no Brasil (1964-1968)

**Autor: Joelza Ester Domingues**

## Introdução: A Música como Arma de Resistência

As décadas de 1960 e 1970 no Brasil foram palco de um fenômeno cultural e político singular: a chamada "canção de protesto". Este gênero musical transcendeu o mero entretenimento para se tornar um instrumento de combate social, uma voz de resistência contra o regime militar instaurado em 1964. Dezenas de compositores, com diferentes trajetórias estéticas e políticas, encontraram na música popular um espaço para expressar anseios de liberdade e democracia, forjando uma feroz oposição à ditadura que se consolidava. Este artigo examina em profundidade as origens, características e o legado dessas canções, analisando desde suas primeiras manifestações em 1964 até o ápice ousado e trágico de "Caminhando" (ou "Pra não dizer que não falei das flores"), de Geraldo Vandré, em 1968. Para compreender plenamente esse movimento, é necessário situá-lo no contexto histórico de repressão, censura e luta política que marcou o período mais sombrio da história republicana brasileira.

## A Natureza da Canção de Protesto

As canções de protesto contra a ditadura militar não eram meros exercícios artísticos; eram canções de combate social que uniam crítica política a um forte apelo emotivo-romântico. Suas letras mergulhavam na realidade crua do Brasil profundo, denunciando a situação miserável e a exploração sofrida pelos excluídos – sertanejos expulsos pela seca, pescadores sem destino, vaqueiros subjugados pela seca, operários explorados nas fábricas e favelados marginalizados nas periferias urbanas. As canções denunciavam as estruturas fundiárias arcaicas, a concentração de terras e o cotidiano de pobreza que assolava os centros urbanos em expansão desordenada.

Mais do que um estilo musical, a canção de protesto foi um marco na história musical do país, contribuindo decisivamente para a consolidação do que se convencionou chamar de MPB (Música Popular Brasileira). Seus maiores expoentes incluíam nomes como Carlos Lyra, Edu Lobo, Sérgio Ricardo, Geraldo Vandré e Chico Buarque de Holanda. A inspiração para essas composições vinha das ideias divulgadas pelos Centros Populares de Cultura (CPC), pelo Teatro de Arena e pelos debates acalorados promovidos pela União Nacional dos Estudantes (UNE) nas universidades brasileiras.

Os temas das canções pretendiam ser revolucionários, pois tinham a intenção explícita de provocar o ouvinte, despertando sua consciência para a necessidade de resistir contra a ditadura militar e lutar pela liberdade. Buscavam, também, sensibilizar e conscientizar setores das classes médias urbanas sobre a pobreza e a miséria reinantes no Brasil – realidades que o regime militar tentava ocultar sob o discurso do "milagre econômico". Para alcançar esse efeito, os intérpretes utilizavam todo um aparato cênico: gestos dramáticos, canto grandiloquente e trechos recitados de forte impacto teatral, transformando cada apresentação em um ato político.

## As Primeiras Manifestações (1964)

### "Carcará" (1964): A Águia do Sertão

A canção "Carcará", de autoria de João do Valle e José Cândido, foi um marco inicial desse movimento. Ela fazia parte do show "Opinião", realizado no Rio de Janeiro em 1964, que reunia canções de diversos compositores engajados. A letra exaltava a coragem e a determinação para vencer a fome e a rudeza do sertão nordestino, apresentando a figura do carcará – uma águia sertaneja – como metáfora da resistência popular. A música incluía a declamação de um texto extraído de um relatório da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) sobre a migração dos nordestinos expulsos de suas terras pela seca e pela fome, conectando a arte à realidade social documentada.

O sucesso de "Carcará" foi imediato e projetou nacionalmente a jovem Maria Bethânia, então com apenas 18 anos, cuja interpretação intensa e visceral marcou para sempre essa canção. Bethânia havia substituído Nara Leão no show "Opinião", e sua performance impressionou o público de forma indelével. Os versos emblemáticos – "Carcará é malvado, é valentão / É a águia de lá do meu sertão / Os burrego novinho num pode andá / Ele puxa o umbigo inté matá / Carcará / Pega, mata e come / Carcará / Num vai morrer de fome / Carcará / Mais coragem do que homem" – tornaram-se um hino de resistência e determinação.

### "Opinião" (1964): O Samba que Desafiou o Regime

Composta por Zé Keti como canção-tema do espetáculo "Opinião", essa música era originalmente uma crítica ao governo estadual do Rio de Janeiro, que pretendia remover as favelas dos morros cariocas. No entanto, o sucesso da música, na voz de Nara Leão, foi tão avassalador que ela transcendeu seu contexto original para se tornar a fala política do sambista do morro e um protesto direto contra a ditadura militar. O samba "Opinião" inspirou não apenas o nome do show, mas também o de um jornal, um teatro e o segundo LP de Nara Leão, lançado no final de 1964.

A letra de "Opinião" é um manifesto de resistência inabalável: "Podem me prender / Podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião. / Daqui do morro / Eu não saio, não / Se não tem água / Eu furo um poço / Se não tem carne / Eu compro um osso / E ponho na sopa / E deixa andar". Esses versos tornaram-se um símbolo da teimosia e da resistência popular contra a opressão.

## A Consolidação do Gênero (1965)

### "Upa, Neguinho" (1965): A Infância Roubada

Composta por Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, "Upa, Neguinho" era originalmente um segmento da peça "Arena conta Zumbi" (1965), de Augusto Boal e Guarnieri. A letra mescla com maestria a inocência da infância com a violência da escravidão, criando uma narrativa comovente sobre a criança negra escravizada e sua esperança de liberdade. No contexto da ditadura militar recém-implantada, esses elementos ganharam contornos de protesto ainda mais pungentes.

A música tornou-se um sucesso imediato na interpretação de Elis Regina, que a gravou pela primeira vez em 1966, no álbum "Dois na Bossa n.2". A voz poderosa de Elis deu vida a versos que denunciavam a violência estrutural: "Upa, neguinho na estrada / upa, pra lá e pra cá / Virge, que coisa mais linda! / Upa neguinho começando a andar. / Começando a andar / Começando a andar / E já começa a apanhar." A canção culmina com um apelo desesperado pela liberdade: "Capoeira, posso ensinar / Ziquizira, posso tirar / Valentia, posso emprestar / mas liberdade só posso esperar".

## Os Festivais de Música: O Palco da Resistência

As canções de protesto contra a ditadura militar ganharam projeção nacional e atingiram seu ápice de visibilidade através dos festivais de canção transmitidos pela televisão. As emissoras TV Excelsior, TV Record e TV Globo tornaram-se palcos onde a música popular brasileira se reinventava e confrontava o regime. Nesses festivais, cantores e compositores apresentavam-se para plateias formadas majoritariamente por estudantes, que participavam com entusiasmo e paixão. Faixas de apoio, vaias ensurdecedoras, gritos e torcidas organizadas eram comuns em todas as fases de seleção, transformando cada edição em um evento político e cultural de primeira grandeza.

No palco dos festivais desfilaram uma imensa variedade de ritmos e estilos, desde toadas ufanistas – defendidas por setores conservadores – até músicas experimentais que rompiam com todas as convenções. Algumas composições misturavam bossa nova, pop, rock e o cancioneiro tradicional, criando uma síntese musical que refletia a efervescência cultural do período. Esses festivais projetaram nacionalmente nomes como Elis Regina, Marília Medalha, Chico Buarque, Sérgio Ricardo, Nara Leão, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Jorge Ben, Jair Rodrigues, Carlos Lyra e Rita Lee (então integrante da banda Os Mutantes).

### Os Principais Festivais e Suas Marcas

- **I Festival da Música Popular Brasileira (1965)**, TV Excelsior: O primeiro lugar foi "Arrastão", de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, cantada por Elis Regina, uma canção que já anunciava as transformações estéticas que viriam.

- **Festival Nacional de Música Popular (1966)**, TV Excelsior: "Porta Estandarte", de Geraldo Vandré e Fernando Lona, interpretada por Tuca, conquistou o primeiro lugar.

- **II Festival da Música Popular Brasileira (1966)**, TV Record: Um empate histórico entre "A Banda", de Chico Buarque, cantada por Nara Leão, e "Disparada", de Téo de Barros e Geraldo Vandré, cantada por Jair Rodrigues. Essa edição marcou a entrada definitiva de Chico Buarque no cenário nacional e consolidou Vandré como um dos compositores mais engajados.

- **III Festival da Música Popular Brasileira (1967)**, TV Record: Amplamente considerado o mais disputado e memorável de todos os festivais, este evento destacou-se pela excelência das músicas classificadas e pelas ousadas inovações de ritmo e arranjos. A participação da plateia foi tão intensa que gerou um episódio violento: o compositor Sérgio Ricardo, impedido de cantar sua música "Beto bom de bola" pelo excesso de vaias, atirou seu violão na plateia em um gesto de frustração que entrou para a história. O primeiro lugar foi "Ponteio", de Edu Lobo e Capinan, cantada por Marília Medalha; o segundo lugar, "Domingo no Parque", de Gilberto Gil com Os Mutantes; o terceiro, "Roda Viva", de Chico Buarque com o MPB 4; e o quarto, "Alegria, Alegria", de Caetano Veloso com o grupo Beat Boys.

- **III Festival Internacional da Canção (1968)**, TV Globo: Este festival foi palco de um dos momentos mais emblemáticos da história da música brasileira. Na final paulista, "É Proibido Proibir", de Caetano Veloso acompanhado por Os Mutantes, foi recebida com vaias furiosas do público, levando Caetano a um discurso inflamado que ficou registrado em disco. Na final do concurso, a canção vitoriosa "Sabiá", de Tom Jobim e Chico Buarque, foi rejeitada pelo público, que preferiu a segunda colocada: "Pra não dizer que não falei das flores" ("Caminhando"), de Geraldo Vandré.

## "Caminhando": A Canção que Desafiou a Ditadura

### O Contexto Histórico

A letra de "Caminhando" foi compreendida de imediato pelos jovens brasileiros que viviam sob a opressão do regime militar. A canção fazia referência direta ao movimento estudantil que, em 1968, tomava as ruas das grandes cidades do país. Esse movimento recrudesceu após o assassinato do estudante Edson Luís de Lima Júnior pela polícia, em um conflito no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, em 28 de março de 1968. Em junho do mesmo ano, realizou-se a Passeata dos Cem Mil, uma das maiores manifestações contra a ditadura militar, reunindo estudantes, intelectuais, artistas e trabalhadores nas ruas do Rio de Janeiro.

Em 31 de dezembro de 1968, foi decretado o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que fechou o Congresso Nacional, suspendeu as liberdades individuais e conferiu poderes excepcionais ao presidente da República. Este foi o marco do início da fase mais dura e repressiva do regime militar, período caracterizado por prisões arbitrárias, tortura e desaparecimentos forçados. É à luz desse contexto de repressão crescente e resistência heroica que os versos de "Caminhando" devem ser lidos e compreendidos.

### A Apresentação que Marcou a História

Diante de uma plateia que lotava o Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, durante o III Festival Internacional da Canção em 1968, Geraldo Vandré apresentou-se de forma surpreendentemente minimalista: sozinho, acompanhado apenas de seu violão. Sem arranjos elaborados ou banda de apoio, Vandré cantou "Caminhando" – também conhecida como "Pra não dizer que não falei das flores". A melodia era simples e despojada, mas a letra era revolucionária e imediatamente conquistou o coração do público presente.

A canção ganhou o segundo lugar na competição oficial, mas a plateia revoltada não aceitou o resultado do júri. O Maracanãzinho explodiu em protestos, e "Caminhando" foi transformada pela vontade popular na grande vencedora simbólica do festival e no hino definitivo contra a ditadura militar. O sucesso fulminante da canção, no entanto, seria rapidamente interrompido pela censura implacável do regime.

### A Repressão e o Exílio

O general Luís de França Oliveira, secretário de Segurança da Guanabara, justificou a proibição da canção com uma declaração reveladora: " tem letra subversiva e sua cadência é do tipo Mao-Tsé-Tung ". A associação com o líder da Revolução Chinesa era, para os militares, uma acusação grave que justificava a censura.

Perseguido implacavelmente pelo regime, Geraldo Vandré foi obrigado a exilar-se. Retornou ao Brasil em 1973, mas continuou sendo vigiado de perto pelos militares, o que o levou a se afastar definitivamente da vida artística. A perseguição a Vandré é um dos exemplos mais emblemáticos da intolerância do regime militar à liberdade de expressão e ao pensamento crítico.

### Análise Detalhada dos Versos de "Caminhando"

1. **"Caminhando e cantando e seguindo a canção"**: Esta primeira estrofe é uma referência direta às passeatas que reuniam milhares de jovens nas ruas das grandes cidades, gritando lemas de liberdade e entoando hinos e músicas de protesto. O ato de caminhar e cantar torna-se um gesto político de resistência.

2. **"Somos todos iguais, braços dados ou não"**: Uma alusão à igualdade fundamental entre as pessoas, independentemente de compartilharem ou não as mesmas ideias. O verso sugere a necessidade de união na diversidade.

3. **"Nas escolas, nas ruas, campos, construções"**: Uma referência à composição variada das passeatas, que reuniam estudantes, jornalistas, operários, intelectuais, religiosos, artistas e trabalhadores de todas as áreas.

4. **"Quem sabe faz a hora não espera acontecer"**: O refrão mais famoso da canção. Este verso é uma convocação direta à ação – uma exortação para que as pessoas não esperem passivamente pelas mudanças, mas que as provoquem ativamente. É um chamado à revolução.

5. **"Pelos campos a fome em grandes plantações"**: Uma crítica contundente à estrutura latifundiária brasileira e à ausência de uma reforma agrária que perpetuava um paradoxo cruel: o trabalhador rural passava fome enquanto trabalhava em enormes plantações pertencentes a grandes proprietários.

6. **"E acreditam nas flores vencendo o canhão"**: Uma nova referência às passeatas, agora retratadas como um movimento pacifista – simbolizado pela flor – contra a violência da repressão militar e das guerras. O verso evoca a força transformadora do amor e da resistência não violenta.

7. **"Quase todos perdidos de arma na mão"**: Uma referência ao estado de alerta e paranoia dos militares, sempre armados, prontos para o combate, mesmo sem compreender plenamente o que estava acontecendo ou quem eram seus verdadeiros inimigos.

8. **" De morrer pela pátria e viver sem razão"**: Uma crítica à disciplina cega dos quartéis, que exige obediência total e incondicional dos soldados, impondo uma vida sem anseios, sem questionamentos e, portanto, sem razão de ser.

## Conclusão: O Legado da Canção de Protesto

As canções de protesto contra a ditadura militar brasileira foram mais do que expressões artísticas; foram documentos históricos vivos que registraram as lutas, os sonhos e as angústias de toda uma geração. Elas desempenharam um papel crucial na resistência cultural contra o regime, mantendo viva a chama da esperança e da luta por liberdade e democracia em um período de trevas.

O legado dessas canções permanece vivo na memória coletiva do povo brasileiro. Elas continuam sendo cantadas em manifestações, relembradas em estudos históricos e celebradas como exemplos de como a arte pode ser um instrumento poderoso de transformação social. A obra de compositores como Geraldo Vandré, Chico Buarque, Edu Lobo, Carlos Lyra e tantos outros serve como um lembrete constante de que a voz do povo, quando expressa através da arte, nunca pode ser completamente silenciada. As flores, de fato, venceram os canhões, e a música de protesto permanece como um testemunho eloquente da força da resistência cultural contra a opressão política.

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**FONTES E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS**

- ABRAHÃO JR., Weber. Música e ensino de História: Isso dá samba? *Caderno de História*, v. 1, n. 1, p. 13-17, 1990.
- CONTIER, Arnaldo. Edu Lobo e Carlos Lyra: o nacional e o popular na canção de protesto. *Revista Brasileira de História*, São Paulo, v. 18, n. 35, p. 13-52, 1998.
- MORAES, José Geraldo Vinci de. História e música: canção popular e conhecimento histórico. *Revista Brasileira de História*, v. 20, n. 39, São Paulo, 2000.
- MORAES, José Geraldo Vinci de & SALIBA, Elias Thomé. *História e música no Brasil*.
- SEVERIANO, Jairo & MELLO, Zuza Homem de. *A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras*. v.2. São Paulo: Ed. 34, 1998.
- MELLO, Zuza Homem de. *A era dos festivais, uma parábola*. São Paulo: Ed. 34, 2003.
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.